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O Novo Paroxismo

O ícone arquitectónico actua de um modo análogo, como um “buraco negro” se tratasse, dentro da cosmologia da cidade, absorvendo desta forma a “matéria”, o desenho desta e suas vivências, relativizando-a num gesto e firme afirmação, para fazê-la simbolizar. Ele absorve a cidade, caracteriza-a, representa-a, relaciona-a, quando em simultâneo, usurpe o protagonismo da essência da cidade, sintetizando por breve instante, o paroxismo de um pulsar de determinado organismo citadino. Ele é irrevogavelmente o postal da cidade. Ele é a cidade.
Actuando assim de forma imagética, onde vive em comunhão com a desordem, com a desresponsabilização e com dissociação da cidade, é concebido exclusivamente para a unificação de um todo.
A Ópera de Sidney, o Guggenheim em Nova Iorque, ou ainda, de um modo escandaloso e antiético que se torna num efeito perverso, sendo que, a sua edificação entra no domínio do paradoxo de um arranha-céus que assenta num espaço outrora árido e estéril, o Burj Khalifa, no Dubai, são exemplos de como objectos icónicos sintetizam as cidades sob estes implantados. Uma rua, ou outro monumento relevante, de outra qualquer cidade, tornam-se assim residuais, ou mesmo branqueados, pela magnitude ou ostentação de um objecto que pretende insinuar a “marca” da cidade. Irremediavelmente, o ícone coexiste na cidade.
No entanto, não é somente através do superficialismo da megalomania, ou “arquitectura espectáculo” que entra no domínio da campetição pelo mais proeminente, que determinado objecto adquire o estatuto de ícone.
A iconicidade é igualmente identificada à escala mais reduzida, não sendo identificável somente pela grande escala, mas pela ligação emocional endémica de uma região, ou pela sua forma. O ícone é inteligível sendo a excepção onde se insere – de modo exemplar – a Casa da Música, no Porto, a Casa das Histórias Paula Rêgo, em Cascais ou o “Edifício sobre a água”, em Huaia, na China, dos arquitectos Álvaro Siza e Carlos Castanheira, são edifícios que pela sua particular forma, ímpar intencionalidade de gesto no território ou particular modo de implantação, criam de um modo mais etéreo e feérico o conceito de ícone, elevando a arquitectura à sintetização da orquestração de elementos, que harmonizam o objecto.
Mas no Mundo globalizado e de rápidas transformações, o conceito de ícone contemporâneo, tende a confudir-se na sua própria banalidade, sintomático de um mundo cada vez mais direccionado para o pragmatismo da forma, onde a aparente simplicidade encerra a subtileza do ícone, que entra em confrontação, com o estado megalómano.

Fotografia: autor desconhecido
Sérgio Miguel Godinho
in ´Anteprojectos´#250