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A Patente Distopia

Nos vários anos precedentes, os arquitectos eram escassos, e eram vistos aos olhos do cidadão comum, como a entidade que trabalhava para o cliente abastado, distante de determinada comunidade e as suas necessidades básicas onde o desenho poderia infligir, de forma positiva, principalmente o colectivo.
O arquitecto de hoje rejeita ser um grupo à parte, incompreendido, marginalizado, ou relativo às elites, trabalhando para a melhoria das condições daqueles que irão habitar os seus espaços, independentemente da classe para a qual se projecta, seja para uma melhor inclusão da sociedade, ou simplesmente para a beleza do território edificado na paisagem.
Perante a banalização da figura, onde o número de arquitectos em Portugal ultrapassa os 20 mil, abre-se assim, a possibilidade da insinuação, para a desvalorização do papel deste e da arquitectura, num contexto em que esta, sofre maior impacto devido às crises das dívidas soberanas dos países da zona Euro, evidenciando assim, a mais vincada crise na arquitectura dos últimos 50 anos.
O busílis da questão não será propriamente o excesso de profissionais em território nacional, mas antes, a cadência de investimento, perante uma retoma que tende a não se revelar expressiva, impedindo os arquitectos de construírem um papel mais activo na sociedade, como entidade que trabalha o melhoramento das condições de vida, a inclusão em prol da comunidade e onde demolir é, igualmente, um acto de preservar assim como de construir.
Da recuperação e manutenção de património ao desenho urbano ainda há muito por executar dentro do espaço dessa infinitude, destinada ao arquitecto como criador de lugar, “criador de felicidade” – citando o arquitecto Fernando Távora – existindo incessantemente a necessidade de transformar a sociedade que se vê em constante mutação, relativamente a espaços, hábitos e ao que o tempo faz às coisas.
Hoje, os arquitectos exploram outros mundos, alternativos até. Festivais de Verão, experimentalismos na habitação centrado em novas tecnologias, galerias de arte, projectos efémeros em resposta a catástrofes naturais ou a exportação de trabalho para o exótico, recebendo assim, novo material para trabalharem, conferindo-lhes, novas valências na descoberta de novos mundos onde actuar.
Se a cadência de arquitectos no passado afastava-os em relação à sociedade, o excesso de hoje, aproxima-os ainda de um modo tímido à mesma, devido a uma sociedade ainda frígida, desligada, pouco informada e anódina, que por vezes, ainda procura a figura do engenheiro para iniciar o projecto, ficando assim travestidas, as funções de cada classe relativa à construção, revelando inevitavelmente, analfabetismo na leitura das duas entidades e suas competências.
A dicotomia entre engenheiros pragmáticos e arquitectos sonhadores mantem-se inerte, continuando a ser indispensável a colaboração de ambos.
Recuperando a ideia de “não-investimento”, ainda assim, do desinvestimento que é notório em Portugal, emergem sinais de uma energia que pressagia um futuro menos nublado e pessimista, onde a cultura arquitectónica deve ser expandida e que o papel do arquitecto seja entendido, como entidade que a cidades e as pessoas necessitam e beneficiam com o criador de lugares, na preserverança, na recuperação, na edificação, na demolição, na memória, seja do privado ou do colectivo.
A crise actual no investimento poderá ter impedido, os arquitectos, explorarem a utopia, onde o que parece irrealizável num sistema social idealizado, não tendo raízes na sociedade, alienado da presente época ou de uma descontinuidade histórica, é o prólogo de algo que virá a ser realista e corpóreo. É preciso ter a capacidade onírica para o fazer.
A ideia de distopia como representação do presente, é assim aceite. Não como ideia filosófica ou pós apocalíptica, mas patológica, pela a geração de maior número de arquitectos, estarem localizados de um modo “anormal” no tempo e no espaço e de uma sociedade desfasada da função do arquitecto para com esta.

SMG
in ´Anteprojectos´#248