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Simbolismo e Niilismo

Somos espectadores da desgraça num mundo desmistificado, onde este, é o palco para os mais hediondos dos crimes. Exprimindo-se por acções terroristas difundidas em horário nobre pelas televisões, confrontam-se picos de audiência incitando às emoções, de ver a morte em directo, ferindo susceptibilidades, para que assim se visualize a dimensão simbólica, de um poder dissipativo e despótico. O vazio, o Nada, o simbólico, sendo estes, correntes expressas em arquitectura através do vazio da ausência e da sua carga emocional. A desmaterialização da arquitectura em nada, é simbolicamente, consequência de um trauma, esse, infligido às sociedades modernas, democráticas e livres de opressão, resultando na abdicação conceptual de um possível objecto a edificar, contrapondo ao “vazio simbólico escultórico”. No niilismo, “existe” a ausência do Homem na sociedade, repercutindo-se na renúncia do objecto, como símbolo de inteligibilidade. É a arquitectura sem referências ao passado, presente ou futuro. Não daquela depurada por uma objectividade revolucionária de desenho, não-referenciada no tempo e lugar, que irrompe análoga ao objecto de sedução, a seduzirmo-nos pela sua assinatura de autor, pela sua iconicidade ou referência a uma “marca”. O niilismo que aqui se trata, é relativo à dor. Um vácuo onde não encerra som, mas eternidade, pesar, desconforto e memória. O pensamento de Nietzsche na arquitectura, tem a sua clara tradução e dramatização – na angústia – simbolizando assim, o vazio da ausência e o desconforto como traduz, por exemplo, o monumento ao Holocausto em Berlim, de Peter Eisenman – que apesar de ser uma manifestação escultórica palpável – blocos negros exprimem uma sensação de intranquilidade, tentando transmitir um ambiente confuso, onde a pretensão é perder o contacto com a razão humana. A dor é expressa em vazio de um modo paradigmático, nos dois negativos forrados a negro, onde outrora estavam erigidas as torres do WTC, em Nova Iorque, onde aqui, outro exemplo envolve a ideia simbólica com um significado profundo. O niilismo subjacente, manifesta-se em arquitectura pelo meio da fragmentação, da carga emocional, pela ausência mundana do Homem, elegendo o relacionamento com o Nada, impondo limites. A imaterialidade é então simbólica, representando aquele que se retirou e deixou vazio. O Nada é representado por uma glorificação da memória, essa que não quer ser branqueada pela evolução avassaladora das cidades, pois a sua materialização, seria uma réplica forte da catástrofe original. É justamente neste ponto dominado pela angústia, pela confusão ou pelo temor, que se exige o mais penetrante esforço intelectual e racional, de modo a transmitir a descodificação de um vazio, portador de informação que se pretende subliminar, criando símbolos a que se obrigam estruturas de representação, onde a ideologia ao agregar-se a essas, transmite uma identidade carregada de “vazio”, mas real, instituindo a criação da ordem a partir do caos. A premissa de um projecto alterar a realidade, altera obrigatoriamente o seu estatuto interno. O pensamento de Nietzsche na arquitectura, encerra assim um paradoxo – o vazio que é criado, é igualmente o da ausência a um referencial, quando em simultâneo é uma estrutura relacional.

SMG
in ´Anteprojectos´#247