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Arquitectura de Cinzas

Lisboa, não é somente, de um modo redutor, uma cidade que se nutre de ofertas para o turismo, para o que chega, para o hóspede assombrado que, num relance de olhos, ingenuamente contempla lugares e ambientes da sua beleza cultural e intrínseca da cidade de Lisboa, esta assente, numa porção de território convexo, de ruas intrincadas, caracterizada ainda por uma sinuosidade própria. De uma gastronomia inerente, de um fado fatalmente carregado de mágoa, de um rio que a desenha, ou de uma luz com contornos celestiais, reflectida na pétrea lioz, características que apelidam Lisboa de - A Cidade branca.
Ela é igualmente, uma cidade de "cinzas", onde se denota o desmazelo das políticas pelo investimento na recuperação, estando na iminência, em muito casos, de chegar a um ponto sem retorno, devido à inexorável passagem do tempo, que carrega a degradação e a delapidação de património que Lisboa detém.
As razões são evidentes: perda de funções de origem, desvalorização da marca estilística, entraves ao crescimento urbanístico e outras intromissões na paisagem, mudança ideológica nos modos de confrontar o património como um documento operativo, abrindo assim, espaço para a ruína.
Sem remissão, as obras entram num processo de ruína, fechadas em silêncio, despercebidas, revelando peças de arquitectura históricas que sofrem o peso de condicionalismos, especulações, desonestidades, infligidas também pelo preconceito –“ o que é velho pode ser descartado”.
Ignora-se o que foi a Lisboa de “ontem”.
Lisboa, assim como outras cidades pelo território, sejam centrais ou satélites, precisam da estimulação urgente de programas de reabilitação. Em sentido figurado, uma injecção de epinefrina, mesmo no centro do coração destes organismos citadinos, centros esses, históricos, que nos tornam reféns da suas qualidades arquitectónicas. Um coração que terá receber uma “droga” excitante, que terá de viver e bombear vida, de modo a devolver a dignidade, repercutindo-se numa adrenalina de vida pelas artérias da cidade.
A injecção será manuseada e injectada pelos arquitectos, dotados da sua sensibilidade de analisar o território, indo contra a visão de grupos económicos. Desse modo, inviabiliza a discriminação, estreitando a ruptura, de zonas da cidade direccionadas para o turismo, outras para a habitação, outras para o ócio, para o trabalho, evitando seccionar os programas de cada zona da cidade, agregando, consolidando e integrando a melhor invenção do Homem – a cidade.
Reabilitar os edifícios é também oferecer uma nova heterogeneidade de vivências há cidade. Densifica-a demograficamente e culturalmente, contrariando o fenómeno de uma periferia desqualificada reduzida a um dormitório.
A arquitectura tem o poder de se alterar programaticamente o seu uso, do que inicialmente estaria planeado.
Lisboa tem edifícios expectantes para uma outra função. A boa arquitectura é aquela que se deixa incorporar, dando espaço para ser volúvel contrariando a entropia aqui enunciada.
Citando uma frase de Siza Vieira -“As casas ardem constantemente”. A pertinente metáfora é adequada ao tema. Não é somente desta entidade ígnea que é relativa às casas, mas aos lugares, às cidades. Ficamos reféns do valor do património e dos efeitos entrópicos que as coisas têm. No caso da edificação, quando se edifica, já há cinza. O que é novo já tem cinza. A entropia acumulará cinza. As portadas cederão, o estuque cairá, o soalho levantará, as portas empenarão, as caixilharias estilhaçar-se-ão com o vento, as coberturas ficarão obsoletas e a natureza engolirá a tectónica. Se a inércia perante este estado de degradação continuar, os arquitectos olham, impotentes, incapacitados por apagar estes “incêndios”.

Sérgio Miguel Godinho
in ´Anteprojectos´#245

Lisboa, não é somente, de um modo redutor, uma cidade que se nutre de ofertas para o turismo, para o que chega, para o hóspede assombrado que, num relance de olhos, ingenuamente contempla lugares e ambientes da sua beleza cultural e intrínseca da cidade de Lisboa, esta assente, numa porção de território convexo, de ruas intrincadas, caracterizada ainda por uma sinuosidade própria. De uma gastronomia inerente, de um fado fatalmente carregado de mágoa, de um rio que a desenha, ou de uma luz com contornos celestiais, reflectida na pétrea lioz, características que apelidam Lisboa de - A Cidade branca.
Ela é igualmente, uma cidade de "cinzas", onde se denota o desmazelo das políticas pelo investimento na recuperação, estando na iminência, em muito casos, de chegar a um ponto sem retorno, devido à inexorável passagem do tempo, que carrega a degradação e a delapidação de património que Lisboa detém.
As razões são evidentes: perda de funções de origem, desvalorização da marca estilística, entraves ao crescimento urbanístico e outras intromissões na paisagem, mudança ideológica nos modos de confrontar o património como um documento operativo, abrindo assim, espaço para a ruína.
Sem remissão, as obras entram num processo de ruína, fechadas em silêncio, despercebidas, revelando peças de arquitectura históricas que sofrem o peso de condicionalismos, especulações, desonestidades, infligidas também pelo preconceito –“ o que é velho pode ser descartado”.
Ignora-se o que foi a Lisboa de “ontem”.
Lisboa, assim como outras cidades pelo território, sejam centrais ou satélites, precisam da estimulação urgente de programas de reabilitação. Em sentido figurado, uma injecção de epinefrina, mesmo no centro do coração destes organismos citadinos, centros esses, históricos, que nos tornam reféns da suas qualidades arquitectónicas. Um coração que terá receber uma “droga” excitante, que terá de viver e bombear vida, de modo a devolver a dignidade, repercutindo-se numa adrenalina de vida pelas artérias da cidade.
A injecção será manuseada e injectada pelos arquitectos, dotados da sua sensibilidade de analisar o território, indo contra a visão de grupos económicos. Desse modo, inviabiliza a discriminação, estreitando a ruptura, de zonas da cidade direccionadas para o turismo, outras para a habitação, outras para o ócio, para o trabalho, evitando seccionar os programas de cada zona da cidade, agregando, consolidando e integrando a melhor invenção do Homem – a cidade.
Reabilitar os edifícios é também oferecer uma nova heterogeneidade de vivências há cidade. Densifica-a demograficamente e culturalmente, contrariando o fenómeno de uma periferia desqualificada reduzida a um dormitório.
A arquitectura tem o poder de se alterar programaticamente o seu uso, do que inicialmente estaria planeado.
Lisboa tem edifícios expectantes para uma outra função. A boa arquitectura é aquela que se deixa incorporar, dando espaço para ser volúvel contrariando a entropia aqui enunciada.
Citando uma frase de Siza Vieira -“As casas ardem constantemente”. A pertinente metáfora é adequada ao tema. Não é somente desta entidade ígnea que é relativa às casas, mas aos lugares, às cidades. Ficamos reféns do valor do património e dos efeitos entrópicos que as coisas têm. No caso da edificação, quando se edifica, já há cinza. O que é novo já tem cinza. A entropia acumulará cinza. As portadas cederão, o estuque cairá, o soalho levantará, as portas empenarão, as caixilharias estilhaçar-se-ão com o vento, as coberturas ficarão obsoletas e a natureza engolirá a tectónica. Se a inércia perante este estado de degradação continuar, os arquitectos olham, impotentes, incapacitados por apagar estes “incêndios”.

Sérgio Miguel Godinho
in ´Anteprojectos´#245