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Hospedeiro e Parasitismo

O mote poderá convergir ao âmbito da biologia, mas utilizando um olhar crítico ou antagónico, é notório que em Lisboa, vive, na sua frente ribeirinha, um hotel de luxo que é o exemplo de como uma entidade corporativa, neste caso o ́Sana hotels ́, detentora de um poder imperioso para se localizar, que reabilita e reativa uma peça que estava desprezada e que nunca alcançou o estatuto da iconicidade.
A Torre Vasco da Gama remetia para uma carga de exterioridade e de um valor para a cidade, superficial e leviano. Uma peça pensada para o momento. Uma instalação, de manifestação artística, mas de difícil desmontagem.
O novo programa hoteleiro, entrelaça-se à Torre, não a descaracterizando totalmente, mas, na realidade, desligou-a da sua indivisa imagem, usurpando-lhe a identidade, a qual carregava, ainda, uma réstia de simbolismo, apesar da ausência de uma sólida historicidade.
É paradigmático neste lugar, como a arquitetura procura valores alternativos, resultando em novas formas de os arquitetos procurarem agir com os erros do passado, perante uma contemporaneidade célere que apaga valores e os substitui por outros, em mutações exacerbadas de conjunturas económicas oscilantes.
A torre ficou transformada num novo Sana. Na verdade, ela é subalternizada. Aproximava-se de uma arquitetura ́high tech ́, megalómana e inútil, onde os arquitetos, viram, na antiga torre, potencial para uma nova imagem do programa hoteleiro.
Esta junção lembra a de um corpo hospedeiro que é infligido por um parasita. Sem o primeiro, o segundo perderia oportunidade e fulgor para sobreviver, mas, sendo o hospedeiro dotado de uma imagem que se aproxima da “arquitetura espetáculo” made in Dubai, houve ensejo para o seu desígnio, retirando-lhe benefícios e alimentando-se do elemento que é consumido.
Esta contaminação, confere uma aparência de unidade ao objeto outrora marginalizado e esquecido. Uma injeção de adrenalina. O parasita torna-se paradoxalmente, indispensável para a reativação do hospedeiro, com a premissa de o reabi(li)tar. Uma espécie de parasitismo que a ciência moderna no campo da ictiologia tenta comprovar – não traz somente malefícios, mas debate-se na seguinte dualidade: absorvem nutrientes, quando em simultâneo protegem de outros fatores adversos que são também consumidos.
O maior benefício naquele lugar, foi de impedir o abandono da altiva peça de aço e betão.
Com esta linha de pensamento, é possível afirmar, que estará tudo por acabar.
A construção desenfreada dos anos precedentes deixou estruturas por terminar, edifícios por reabilitar, espaços públicos por requalificar, devaneios por controlar, excessos por integrar, centros de cidades por habitar…
Quantos “hospedeiros” existirão pelo território, esperando serem extraídas as suas qualidades numa nova abordagem?

Sérgio Miguel Godinho
in ´Anteprojectos´#241

O mote poderá convergir ao âmbito da biologia, mas utilizando um olhar crítico ou antagónico, é notório que em Lisboa, vive, na sua frente ribeirinha, um hotel de luxo que é o exemplo de como uma entidade corporativa, neste caso o ́Sana hotels ́, detentora de um poder imperioso para se localizar, que reabilita e reativa uma peça que estava desprezada e que nunca alcançou o estatuto da iconicidade.
A Torre Vasco da Gama remetia para uma carga de exterioridade e de um valor para a cidade, superficial e leviano. Uma peça pensada para o momento. Uma instalação, de manifestação artística, mas de difícil desmontagem.
O novo programa hoteleiro, entrelaça-se à Torre, não a descaracterizando totalmente, mas, na realidade, desligou-a da sua indivisa imagem, usurpando-lhe a identidade, a qual carregava, ainda, uma réstia de simbolismo, apesar da ausência de uma sólida historicidade.
É paradigmático neste lugar, como a arquitetura procura valores alternativos, resultando em novas formas de os arquitetos procurarem agir com os erros do passado, perante uma contemporaneidade célere que apaga valores e os substitui por outros, em mutações exacerbadas de conjunturas económicas oscilantes.
A torre ficou transformada num novo Sana. Na verdade, ela é subalternizada. Aproximava-se de uma arquitetura ́high tech ́, megalómana e inútil, onde os arquitetos, viram, na antiga torre, potencial para uma nova imagem do programa hoteleiro.
Esta junção lembra a de um corpo hospedeiro que é infligido por um parasita. Sem o primeiro, o segundo perderia oportunidade e fulgor para sobreviver, mas, sendo o hospedeiro dotado de uma imagem que se aproxima da “arquitetura espetáculo” made in Dubai, houve ensejo para o seu desígnio, retirando-lhe benefícios e alimentando-se do elemento que é consumido.
Esta contaminação, confere uma aparência de unidade ao objeto outrora marginalizado e esquecido. Uma injeção de adrenalina. O parasita torna-se paradoxalmente, indispensável para a reativação do hospedeiro, com a premissa de o reabi(li)tar. Uma espécie de parasitismo que a ciência moderna no campo da ictiologia tenta comprovar – não traz somente malefícios, mas debate-se na seguinte dualidade: absorvem nutrientes, quando em simultâneo protegem de outros fatores adversos que são também consumidos.
O maior benefício naquele lugar, foi de impedir o abandono da altiva peça de aço e betão.
Com esta linha de pensamento, é possível afirmar, que estará tudo por acabar.
A construção desenfreada dos anos precedentes deixou estruturas por terminar, edifícios por reabilitar, espaços públicos por requalificar, devaneios por controlar, excessos por integrar, centros de cidades por habitar…
Quantos “hospedeiros” existirão pelo território, esperando serem extraídas as suas qualidades numa nova abordagem?

Sérgio Miguel Godinho
in ´Anteprojectos´#241